Como Dividir o Aporte Mensal entre Ações e FIIs: Passo a Passo com Números

Por Andrel Wirth · Publicado em 15 de outubro de 2026

Todo mês a mesma pergunta: entrou o dinheiro do aporte, e agora, quanto vai para ações, quanto vai para FIIs e quantas cotas de cada ativo comprar? A resposta curta é "mande o dinheiro para onde falta". A resposta útil precisa de números, porque três detalhes mudam o resultado: o alvo é calculado sobre o patrimônio depois do aporte, um ativo abaixo do alvo pode estar caro demais para comprar, e cotas não se dividem. Este guia faz o cálculo completo de um aporte de R$ 1.000 numa carteira de oito ativos, etapa por etapa.

Sobre o exemplo: a carteira abaixo é hipotética e os tickers (AAAA3, BBBB11…) são fictícios, escolhidos para não parecer recomendação de nenhum ativo real. Os preços são ilustrativos. Os valores de compra foram calculados pelo motor de simulação de aporte do Norteia, o mesmo que roda no aplicativo — não foram ajustados à mão.

A carteira de partida

O investidor do exemplo tem R$ 29.288 investidos e uma estratégia simples: 50% em ações e 50% em FIIs, e dentro de cada classe quatro ativos com 25% cada. Para cada ativo ele também definiu um preço-teto, o máximo que aceita pagar.

AtivoCotação (R$)Teto (R$)Valor (R$)% na classe
AAAA338,0045,004.18028,2%
BBBB312,0014,003.24021,8%
CCCC355,0060,003.85025,9%
DDDD321,0020,003.57024,1%
Ações (50,67% do total)14.840
AAAA1198,00105,004.11628,5%
BBBB119,5010,003.42023,7%
CCCC11160,00170,002.88019,9%
DDDD11112,00120,004.03227,9%
FIIs (49,33% do total)14.448

Note que os valores são a cotação de hoje vezes a quantidade, não o que foi pago na compra. Usar o custo médio no lugar do valor de mercado é o erro mais comum nesse cálculo: um ativo que caiu parece maior na carteira do que realmente é e acaba recebendo menos do que deveria.

Passo 1: quanto vai para ações e quanto vai para FIIs

A primeira reação ao olhar a tabela é "ações estão acima de 50%, então o aporte inteiro vai para FIIs". Parece lógico, mas o alvo não é calculado sobre o patrimônio de hoje, e sim sobre o patrimônio depois do aporte:

Ações estão acima do alvo hoje, mas o patrimônio cresce com o aporte, e o alvo cresce junto. Se todo o dinheiro fosse para FIIs, a carteira terminaria com ações em 49,0% e FIIs em 51,0%, ou seja, desequilibrada para o outro lado. A divisão certa é R$ 304 para ações e R$ 696 para FIIs, e com ela as duas classes fecham o mês exatamente em 50%.

E o atalho de dividir meio a meio, R$ 500 para cada? Ações terminariam em 50,65% e FIIs em 49,35%, praticamente onde começaram. Dividir na proporção do alvo só mantém o desequilíbrio que já existe; quem está acima continua acima.

Passo 2: dentro de cada classe, quem recebe

A mesma lógica se repete um nível abaixo: cada ativo tem 25% de alvo dentro da sua classe, e recebe quem está abaixo disso. Mas aqui entra o segundo filtro, o preço-teto.

Ações: um candidato bloqueado pelo preço

AAAA3 (28,2%) e CCCC3 (25,9%) já estão acima do alvo e ficam de fora. Sobram BBBB3 (21,8%) e DDDD3 (24,1%). Só que DDDD3 está cotada a R$ 21,00 e o teto que o investidor aceita pagar é R$ 20,00: ela está abaixo do alvo, mas cara. Comprar só porque o percentual está baixo seria trocar disciplina de preço por disciplina de proporção. DDDD3 fica bloqueada neste mês, e os R$ 304 das ações vão para BBBB3: 25 ações a R$ 12,00 = R$ 300. Sobram R$ 4, que não compram mais nada nesta classe.

O bloqueio não é permanente. Quando a cotação de DDDD3 voltar para dentro do teto, ela volta a disputar o aporte, e como estará mais defasada, com prioridade.

FIIs: o problema da cota cara

AAAA11 (28,5%) e DDDD11 (27,9%) estão acima do alvo. Os candidatos são CCCC11, o mais defasado (19,9%), e BBBB11 (23,7%), ambos dentro do teto. Como os dois têm o mesmo alvo, os R$ 696 da classe são divididos em partes iguais entre eles, e cada parte compra o máximo de cotas inteiras:

Repare que CCCC11, o mais atrasado, termina o mês em 21,1%, ainda abaixo do alvo, enquanto BBBB11 chega a 25,0%. Isso não é erro: a cota cara anda em degraus de R$ 160, e forçar uma terceira cota tiraria dinheiro do outro fundo que também precisava. CCCC11 continua sendo o mais defasado e volta a ter prioridade no próximo aporte. É assim que uma cota cara chega ao alvo com aportes pequenos: em alguns meses, não de uma vez.

O resultado do mês

AtivoCompraValor% na classe antes% na classe depois
BBBB325 açõesR$ 300,0021,8%23,4%
DDDD3bloqueada (acima do teto)—24,1%23,6%
CCCC112 cotasR$ 320,0019,9%21,1%
BBBB1139 cotasR$ 370,5023,7%25,0%
TotalR$ 990,50

Os outros quatro ativos não recebem nada e perdem um pouco de peso, porque a classe cresceu sem eles. Os R$ 9,50 que sobram (R$ 4 das ações e R$ 5,50 dos FIIs) ficam em caixa e entram no aporte do mês seguinte. Gastar a sobra num ativo qualquer só para "não deixar dinheiro parado" é o jeito mais rápido de desfazer o cálculo que acabou de ser feito.

E se o aporte for de R$ 500?

Com metade do dinheiro, a lógica é idêntica e o resultado muda bastante. O patrimônio depois do aporte seria R$ 29.788, o alvo de cada classe R$ 14.894, e a divisão fica em R$ 54 para ações e R$ 446 para FIIs, porque com um aporte menor o peso do excesso que ações já têm é proporcionalmente maior. As compras simuladas seriam 4 ações de BBBB3 (R$ 48), 1 cota de CCCC11 (R$ 160) e 30 cotas de BBBB11 (R$ 285), com R$ 7 de sobra. Quem aporta pouco precisa aceitar que a carteira converge para o alvo mais devagar; o método é o mesmo.

Erros comuns ao dividir o aporte

Conclusão

Dividir o aporte é uma conta de três etapas: quanto cada classe precisa para chegar ao alvo depois do aporte, quais ativos dentro dela estão abaixo do alvo e dentro do preço-teto, e quantas cotas inteiras cabem no valor de cada um. Feita todo mês com as cotações do dia, essa conta substitui a sensação de "acho que está na hora de comprar FII" por um número. Para entender quando faz sentido corrigir a carteira vendendo em vez de aportar, veja o guia de rebalanceamento de carteira na B3; para a comparação entre priorizar o percentual ou o preço, o guia preço-teto vs percentual-alvo; e para definir o teto de cada ativo, o passo a passo do preço-teto pelo método Bazin.

Perguntas frequentes

Devo dividir o aporte meio a meio entre ações e FIIs?

Só se a carteira já estiver exatamente no alvo. Dividir o aporte na mesma proporção do alvo mantém o desequilíbrio que já existe: quem está acima continua acima. O ideal é calcular quanto cada classe precisa para chegar ao alvo considerando o patrimônio depois do aporte, e mandar o dinheiro para onde falta.

O que fazer quando a cota do FII é cara e o aporte é pequeno?

Compre quantas cotas inteiras couberem no valor que aquele fundo deveria receber e aceite que ele chegue ao alvo em mais de um mês. O que sobra fica em caixa e entra no aporte seguinte. Não vale comprar outro ativo só para zerar a sobra, porque isso desequilibra a carteira na direção oposta.

Um ativo abaixo do alvo deve sempre receber aporte?

Não. Se a cotação estiver acima do preço-teto que você definiu, o ativo fica de fora naquele mês mesmo estando abaixo do alvo. O dinheiro vai para os outros ativos da mesma classe, e o bloqueado volta a ser considerado quando o preço cair para dentro do teto.

Com que frequência devo recalcular a divisão do aporte?

A cada aporte, com as cotações do dia. Os percentuais mudam todo mês por causa da variação de preço e dos proventos, então a divisão do mês passado raramente serve para o mês atual.

Importe o relatório da B3, cadastre alvos e preços-teto e veja a divisão do seu próximo aporte, ativo por ativo.

Simular meu próximo aporte no Norteia →
Conteúdo educativo, não constitui recomendação de investimento. A carteira do exemplo é hipotética, com tickers fictícios e preços ilustrativos. Confira a Política Editorial.