Cálculos por ativo antes de montar a carteira: preço-teto, DY, P/L e mais

Por Andrel Wirth · Publicado em 16 de outubro de 2026

Antes de decidir quanto da carteira vai para cada ação ou FII, vale responder três perguntas sobre cada ativo: quanto ele paga, quanto ele vale segundo algum critério explícito e se o negócio aguenta continuar pagando. Este guia reúne as contas que respondem a essas perguntas, aplica todas no mesmo exemplo numérico e indica, para cada fórmula, de onde ela vem. As referências completas estão no fim da página.

Sobre o exemplo: a empresa "Exemplo S.A." (EXEM3) e o fundo "Exemplo FII" (EXEM11) são fictícios. Todos os números foram escolhidos para facilitar a conta e não descrevem nenhum ativo real. Antes de usar qualquer fórmula, leia o aviso de responsabilidade no fim do guia.

Os dados de entrada

Quase todas as contas usam os mesmos poucos números por ação. Eles estão nas demonstrações financeiras da empresa (no site de RI ou no sistema de consulta da CVM) e no histórico de proventos divulgado pela B3. Para o exemplo:

Dado (EXEM3)SiglaValor
Cotação atualPR$ 30,00
Proventos pagos por ação nos últimos 12 meses (dividendos + JCP)DPAR$ 2,10
Lucro líquido por ação dos últimos 12 mesesLPAR$ 3,20
Patrimônio líquido por açãoVPAR$ 18,00
Dívida bruta / caixa / EBITDA 12 meses—R$ 900 mi / R$ 300 mi / R$ 400 mi

Um cuidado que vale para todas as seções: use o mesmo período em todos os dados (os últimos 12 meses, ou o último exercício completo). Misturar o lucro de um ano com o dividendo de outro distorce todos os indicadores derivados.

1. Dividend yield (DY)

Quanto o ativo pagou em proventos, em proporção ao preço de hoje.

DY = DPA dos últimos 12 meses ÷ cotação atual

EXEM3: R$ 2,10 ÷ R$ 30,00 = 7,0%.

O DY é retrospectivo: mostra o que foi pago, não o que será. Um dividendo extraordinário (venda de um ativo, lucro não recorrente) infla o indicador por 12 meses. Quando houver pagamento atípico, refaça a conta sem ele ou use a média de vários anos, como o próprio Bazin sugeria. O guia armadilha do dividend yield mostra o que acontece quando o DY alto não se sustenta.

Fonte da definição: Damodaran, Investment Valuation [1]. Contexto de uso como critério de compra: Bazin [2].

2. Payout

Qual fatia do lucro virou provento. Ajuda a avaliar se o DY é sustentável.

Payout = DPA ÷ LPA

EXEM3: R$ 2,10 ÷ R$ 3,20 = 65,6%. A empresa distribuiu cerca de dois terços do lucro e reteve um terço para reinvestir.

Payout acima de 100% significa que a empresa pagou mais do que lucrou no período, usando caixa, reservas ou dívida. Isso pode acontecer por um ano, mas não se repete indefinidamente. No Brasil, a Lei das S.A. prevê um dividendo mínimo obrigatório definido no estatuto de cada companhia, que funciona como piso, não como estimativa do payout real.

Fontes: definição em Damodaran [1]; dividendo obrigatório no art. 202 da Lei nº 6.404/1976 [6].

3. Preço-teto pelo método Bazin

O preço máximo para que o provento atual renda pelo menos um yield mínimo escolhido por você.

Preço-teto (Bazin) = DPA ÷ yield mínimo desejado

Bazin usava 6% como mínimo. EXEM3: R$ 2,10 ÷ 0,06 = R$ 35,00.

Os 6% são parâmetro, não constante. Com juros altos na renda fixa, muitos investidores exigem mais (com 8%, o teto de EXEM3 cai para R$ 26,25). O método ignora crescimento e serve mal para empresas que pagam pouco provento. Os detalhes estão no guia como calcular o preço-teto pelo método Bazin.

Fonte: Bazin, Faça Fortuna com Ações, Antes que Seja Tarde [2].

4. Preço justo pelo número de Graham

Um teto que combina lucro e patrimônio, voltado ao investidor defensivo.

Preço justo (Graham) = √(22,5 × LPA × VPA)

EXEM3: √(22,5 × 3,20 × 18,00) = √1.296 = R$ 36,00.

A fórmula não aparece escrita assim no livro. Ela deriva de uma regra de Graham para o investidor defensivo: o produto do P/L pelo P/VP não deveria passar de 22,5, por exemplo P/L 15 com P/VP 1,5. Isolando o preço, chega-se à raiz acima. A regra exige LPA e VPA positivos e funciona mal em empresas de crescimento, em bancos com patrimônio muito alavancado e em negócios com poucos ativos tangíveis.

Fonte: Graham, The Intelligent Investor, cap. 14 [3]. Outros métodos (DCF, múltiplos) no guia de preço-teto em ações da B3.

5. Preço justo pelo modelo de Gordon

O valor de uma ação como o valor presente de dividendos que crescem a uma taxa constante, para sempre.

Preço justo (Gordon) = D1 ÷ (k − g), com D1 = DPA × (1 + g)

k é o retorno anual que você exige do ativo e g é o crescimento anual esperado do provento, na perpetuidade. A fórmula só vale com k maior que g.

Para estimar g, uma referência clássica é o crescimento sustentável: a parte do lucro que fica na empresa, reinvestida ao retorno que ela obtém sobre o patrimônio.

g sustentável = ROE × (1 − payout)

EXEM3: 17,8% × (1 − 0,656) = 6,1% ao ano. Esse é um teto para g, não uma previsão. Nenhuma empresa cresce acima da economia para sempre, e Damodaran recomenda que o g da perpetuidade não passe da taxa de crescimento de longo prazo da economia [1].

Com k = 12%, o resultado muda muito conforme o g escolhido:

gD1k − gPreço justo
3%R$ 2,1639%R$ 24,03
4%R$ 2,1848%R$ 27,30
5%R$ 2,2057%R$ 31,50
6%R$ 2,2266%R$ 37,10

Três pontos percentuais de diferença em g produzem um preço justo de R$ 24 a R$ 37. É por isso que Gordon é útil para entender quais premissas o preço atual embute, e frágil como número único.

Fontes: Gordon, "Dividends, Earnings, and Stock Prices" [4]; crescimento sustentável e limites de g em Damodaran [1].

6. Margem de segurança

A distância entre o preço de hoje e o seu teto, como proporção do teto.

Margem de segurança = (preço-teto − cotação) ÷ preço-teto

EXEM3 contra o teto de Bazin: (35,00 − 30,00) ÷ 35,00 = 14,3%. Contra o número de Graham: (36,00 − 30,00) ÷ 36,00 = 16,7%.

Margem negativa significa preço acima do teto. Alguns sites dividem pela cotação em vez do teto, o que dá números maiores (16,7% e 20,0% no exemplo). Escolha uma convenção e mantenha a mesma em todos os ativos.

Fonte do conceito: Graham, The Intelligent Investor, cap. 20 [3].

7. Múltiplos: P/L e P/VP

P/L = cotação ÷ LPA     P/VP = cotação ÷ VPA

EXEM3: P/L = 30,00 ÷ 3,20 = 9,4; P/VP = 30,00 ÷ 18,00 = 1,67. O produto (9,375 × 1,667 ≈ 15,6) fica abaixo de 22,5, coerente com o preço estar abaixo do número de Graham.

Múltiplos só dizem algo em comparação: com empresas do mesmo setor ou com o histórico da própria empresa. Um P/L 9 pode ser caro para uma distribuidora de energia e barato para uma empresa de tecnologia. Com lucro negativo, o P/L perde sentido.

Fonte: Damodaran, Investment Valuation, avaliação relativa por múltiplos [1].

8. Rentabilidade e endividamento: ROE e dívida líquida/EBITDA

As duas contas desta seção não dão preço. Elas dizem se o negócio sustenta os números acima.

ROE = lucro líquido ÷ patrimônio líquido (por ação: LPA ÷ VPA)

EXEM3: 3,20 ÷ 18,00 = 17,8%. O ideal é usar o patrimônio médio do período (início + fim, dividido por 2), já que o lucro foi gerado ao longo do ano.

Dívida líquida / EBITDA = (dívida bruta − caixa) ÷ EBITDA dos últimos 12 meses

EXEM3: (900 − 300) ÷ 400 = 1,5 vez, ou seja, a geração de caixa operacional de um ano e meio quitaria a dívida líquida. Não existe limite universal: setores de receita previsível (energia, saneamento) costumam operar mais alavancados que varejo ou construção. Bancos não têm EBITDA no sentido usual, e para eles o indicador não se aplica.

Fontes: ROE e sua decomposição em Damodaran [1]; definição do LAJIDA (EBITDA) divulgado pelas companhias abertas na Resolução CVM nº 156/2022 [7].

9. O que muda para FIIs

Fundos imobiliários não têm LPA nem EBITDA no sentido de uma empresa, então Graham, P/L e endividamento por EBITDA não se aplicam. Ficam DY, preço-teto por yield mínimo, margem de segurança e P/VP. Exemplo com o fictício EXEM11:

ContaEXEM11
CotaçãoR$ 95,00
Rendimentos dos últimos 12 meses (12 × R$ 0,80)R$ 9,60
Valor patrimonial por cotaR$ 100,00
DY 12 meses = 9,60 ÷ 95,0010,1%
P/VP = 95,00 ÷ 100,000,95
Preço-teto para yield mínimo de 10% = 9,60 ÷ 0,10R$ 96,00
Margem de segurança = (96,00 − 95,00) ÷ 96,001,0%

Por lei, o FII distribui pelo menos 95% do lucro apurado pelo regime de caixa, com base em balanço semestral. Por isso o rendimento mensal acompanha de perto o resultado do fundo, e um DY alto com P/VP muito baixo costuma sinalizar risco percebido (vacância, inadimplência, dívida) e não pechincha. Mais sobre isso nos guias de dividend yield de FII e de P/VP de FII.

Fonte da regra de distribuição: art. 10, parágrafo único, da Lei nº 8.668/1993, incluído pela Lei nº 9.779/1999 [5].

Juntando tudo: a ficha do ativo

Indicador (EXEM3)ResultadoLeitura
DY7,0%Acima dos 6% de Bazin
Payout65,6%Paga com sobra de lucro
ROE17,8%Rentabilidade sobre o patrimônio
Dívida líquida/EBITDA1,5xComparar com o setor
P/L / P/VP9,4 / 1,67Comparar com o setor e o histórico
Teto Bazin (6%)R$ 35,00Cotação abaixo
GrahamR$ 36,00Cotação abaixo
Gordon (k 12%, g 4%)R$ 27,30Cotação acima

Os métodos discordam, e isso é informação. Bazin e Graham dizem que R$ 30 está abaixo do teto; Gordon, com g de 4%, diz que o preço só se justifica se os proventos crescerem perto de 5% ao ano para sempre. Uma regra conservadora é adotar o menor teto entre os métodos que fazem sentido para aquele ativo. Por essa regra, EXEM3 ficaria em espera. Outra é escolher um método por tipo de ativo (Bazin para pagadoras maduras, Graham para empresas lucrativas com patrimônio relevante) e mantê-lo. O importante é decidir a regra antes de olhar o resultado, não escolher o método que confirma a compra.

Da ficha para a carteira

Com o teto definido, entra a conta de alocação. Para cada ativo com cotação abaixo do teto:

Valor-alvo = patrimônio total × percentual-alvo
Quantidade a comprar = arredondar para baixo((valor-alvo − valor atual) ÷ cotação)

Exemplo: carteira de R$ 20.000 com alvo de 10% em EXEM3 (R$ 2.000) e 40 ações já compradas (R$ 1.200). Faltam R$ 800, ou 26 ações (R$ 780), já que não se compra fração no mercado à vista padrão. Na prática, o aporte novo também aumenta o patrimônio, e o alvo deve ser calculado sobre o valor depois do aporte. O guia como dividir o aporte mensal entre ações e FIIs faz essa conta completa numa carteira com oito ativos, e o de preço-teto vs percentual-alvo explica por que os dois filtros se complementam.

Resumo das fórmulas e fontes

CálculoFórmulaFonte
Dividend yieldDPA 12m ÷ cotação[1], [2]
PayoutDPA ÷ LPA[1], [6]
Teto BazinDPA ÷ yield mínimo (6%)[2]
Número de Graham√(22,5 × LPA × VPA)[3]
GordonDPA × (1 + g) ÷ (k − g)[4], [1]
Crescimento sustentávelROE × (1 − payout)[1]
Margem de segurança(teto − cotação) ÷ teto[3]
P/L e P/VPcotação ÷ LPA; cotação ÷ VPA[1]
ROElucro líquido ÷ patrimônio líquido[1]
Dívida líquida/EBITDA(dívida bruta − caixa) ÷ EBITDA[7]
Distribuição mínima de FII≥ 95% do lucro caixa semestral[5]

Perguntas frequentes

Qual método de preço-teto é o correto?

Nenhum é correto para todos os casos. Bazin olha só para dividendos, Graham para lucro e patrimônio, Gordon para dividendos que crescem. No mesmo ativo os resultados podem divergir bastante. Uma prática conservadora é calcular mais de um e adotar o menor.

Como calcular o dividend yield de uma ação?

Some os proventos por ação pagos nos últimos 12 meses (dividendos e JCP) e divida pela cotação atual. R$ 2,10 de proventos com a ação a R$ 30,00 dá DY de 7,0%.

Os cálculos deste guia valem para FIIs?

DY, preço-teto por yield mínimo, margem de segurança e P/VP valem. Número de Graham, P/L e dívida líquida/EBITDA foram pensados para empresas e não se aplicam bem a fundos imobiliários.

Posso usar estes números para decidir uma compra?

O guia é educativo e usa dados fictícios. As fórmulas são simplificações e dependem de premissas suas. Confira os dados nas fontes oficiais e, se precisar de recomendação personalizada, procure um profissional habilitado.

Referências

  1. DAMODARAN, Aswath. Investment Valuation: Tools and Techniques for Determining the Value of Any Asset. 3. ed. Hoboken: Wiley, 2012. Modelos de desconto de dividendos, crescimento sustentável, ROE e avaliação relativa por múltiplos.
  2. BAZIN, Décio. Faça Fortuna com Ações, Antes que Seja Tarde. São Paulo: CLA Editora, 1992 (1.ª ed.). Critério de dividend yield mínimo de 6% e uso da média de proventos.
  3. GRAHAM, Benjamin. The Intelligent Investor. 4. ed. rev. Nova York: Harper & Row, 1973. Cap. 14 (seleção de ações para o investidor defensivo; produto P/L × P/VP ≤ 22,5) e cap. 20 (margem de segurança). Edição brasileira: O Investidor Inteligente, HarperCollins Brasil.
  4. GORDON, Myron J. Dividends, Earnings, and Stock Prices. The Review of Economics and Statistics, v. 41, n. 2, parte 1, p. 99–105, maio 1959.
  5. BRASIL. Lei nº 8.668, de 25 de junho de 1993, art. 10, parágrafo único (incluído pela Lei nº 9.779, de 19 de janeiro de 1999). Distribuição mínima de 95% dos lucros dos fundos de investimento imobiliário.
  6. BRASIL. Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976 (Lei das S.A.), art. 202. Dividendo obrigatório.
  7. COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS. Resolução CVM nº 156, de 23 de junho de 2022. Divulgação de LAJIDA (EBITDA) e LAJIR (EBIT) por companhias abertas (substituiu a Instrução CVM nº 527/2012).

As fórmulas reproduzem a forma usual com que esses autores e normas são aplicados por investidores pessoa física. A redação simplificada e os exemplos numéricos são do Norteia.

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